São João do Piauí, 26 de janeiro de 2022
Política
Joe
Por: Joe
João Doria é o candidato do PSDB à Presidência da República em 2022
João Dória foto: Valor Econômico
João Doria é o candidato do PSDB à Presidência da República em 2022
27/11/2021 20h59

Depois de prévias para lá de tumultuadas, os tucanos escolheram o governador de São Paulo, João Doria para disputar as eleições presidenciais de 2022. Doria teve quase 54% dos votos, derrotando o governador gaúcho Eduardo Leite, apoiado por cerca de 45% dos participantes, e Arthur Virgílio, ex-prefeito de Manaus, que ficou na já esperada lanterna com pouco mais de 1% dos votos.

A vitória do governador paulista é a penúltima etapa de um projeto de poder iniciado com o lançamento da candidatura a prefeito da capital. Aos olhos de qualquer eleitor mais atento, Doria acertou o Edifício Matarazzo já mirando no Palácio do Planalto. Foi com essa intenção que abandonou a prefeitura pouco mais de um ano depois de eleito para disputar o comando do Palácio dos Bandeirantes.

Candidato improvável em todas as eleições, ele jamais mediu esforços – e deixou os escrúpulos de lado – para atingir seus objetivos. Foi assim que inventou a chapa BolsoDória para conquistar os eleitores de Jair Bolsonaro nas eleições ao governo de 2018. E também por isso desfez a parceria imaginária um mês depois da vitória.

Naquele ano, pediu a um amigo numa terça-feira para encontrar-se com Bolsonaro no Rio de Janeiro três dias depois. Na sexta, a notícia do encontrou já aparecia em diversos veículos de comunicação antes mesmo que o candidato à Presidência tivesse aceitado o convite. Dória já estava no avião a caminho do Rio quando descobriu que não seria recebido. Como prêmio de consolação, conseguiu uma foto ao lado de Paulo Guedes no jardim da casa de Paulo Marinho graças à insistência de Joice Hasselmann, que convenceu o futuro ministro a conceder o favor.

A entrada no PSDB também foi pouco cuidadosa. Doria chegou atropelando um partido consolidado e criando fissuras internas. Foi graças a Geraldo Alckmin, por exemplo, que conseguiu o direito de concorrer às prévias à prefeitura. Em vez de retribuir o favor na eleição presidencial disputada por Alckmin dois anos depois, Doria preferiu ficar do lado, ainda no primeiro turno, de quem tinha mais chance de lhe transferir votos.

O derrotado

Eduardo Leite é o oposto do paulista. Eleito prefeito de Pelotas, ficou até o fim do mandato. Contrário a reeleição, deixou o cargo mesmo sendo o preferido no pleito e esperou dois anos até concorrer ao governo do Estado. Na disputa, apoiou Geraldo Alckmin explicitamente no 1º turno e fez gestos discretos de simpatia a Bolsonaro no 2º.

Articulador extremamente habilidoso, conseguiu governar contando com o apoio da maioria da Assembleia e, como maior mérito, sanou as contas do Estado — tarefa considerada impossível pelos antecessores. A elegância com que sempre atravessou as campanhas e a fama de cumprir a palavra, contudo, não foram suficientes para garantir a vitória nas prévias deste sábado. Agora, resta a Leite a chance de quebrar com a tradição gaúcha de não reeleger governadores. A visibilidade que conseguiu com certeza também lhe garantirá uma vaga na disputa presidencial de 1926, quando terá recém feito 40 anos de idade.

As prévias

As prévias do PSDB foram marcadas por turbulências. A votação teve início no domingo 21, mas foi interrompida por uma série de falhas no aplicativo utilizado no pleito. Poucos filiados conseguiram votar. A empresa escolhida para dar continuidade ao processo de votação foi a BeeVoter. O processo foi reiniciado às 8 horas deste sábado, 27.

Ao todo, votaram mais de 44 mil filiados ao PSDB, entre militantes e dirigentes partidários. Apenas 8% desse total haviam conseguido participar da votação no fim de semana passado. Além disso, a legenda levantou suspeitas de que tenha havido um ataque hacker ao sistema.

Os próximos desafios

Na reportagem de capa da mais recente edição de Oeste, Silvio Navarro observa que o agora eleito João Doria precisará enfrentar o tradicional “fogo amigo”. O chumbo virá do Sul e de Minas Gerais, onde Aécio Neves ainda dá as cartas e joga pesado contra ele. O sonho de Doria, aliás, custará ainda mais caro se o seu vice, Rodrigo Garcia, perder a hegemonia tucana do Palácio dos Bandeirantes. Algo que dura desde que Mario Covas foi eleito em 1994, derrotando de vez o “quercismo” caipira.

Doria, hoje, é impopular às margens do Rodoanel e nos quilômetros que levam ao interior ou litoral, ainda que vá despejar milhões em obras nas cidades no próximo ano. Na capital, ele perdeu a confiança dos conservadores há muito tempo e tampouco seu sapatênis agrada aos “meio intelectuais, meio de esquerda” das mesas da USP e da Vila Madalena. A alternativa, agora, será vestir a capa do “Capitão Vacina” rumo a Brasília e contrariar os tecnocratas do gabinete anticovid para liberar logo o uso de máscaras. A partir do dia 11, elas não serão mais obrigatórias ao ar livre.

Outro ponto a ser considerado é que a cizânia dentro do partido pode produzir estragos ainda maiores na bancada da Câmara, que vem minguando eleição após eleição. Em 2018, os tucanos saíram das urnas com 29 cadeiras, a nona bancada da Casa, algo impensável para uma legenda que era protagonista na política. No Senado, atualmente o PSDB tem só seis representantes — o cearense Tasso Jereissati está licenciado.

Para o jornalista Augusto Nunes, o PSDB parecia a caminho da maioridade até dezembro de 2005, quando cometeu o primeiro de dois grandes equívocos que o tornariam igual a todos os outros. “Confrontados com a descoberta do mensalão mineiro, os caciques do PSDB não tiveram suficiente coragem para afastar da presidência nacional do partido o ex-governador Eduardo Azeredo”, afirmou Nunes.

Embora tenha sido o azarão em todas as eleições que disputou, Doria terá um caminho ainda mais árduo em 2022. A terceira via ainda é uma ideia improvável. E o governador de São Paulo tem a desvantagem de contar com a antipatia tanto dos bolsonaristas quanto dos lulistas. A um ano da eleição, continuam a existir apenas dois candidatos com chances reais de vitória.

FONTE: RevistaOeste
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